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  • Foto do escritorDayani Croda Machado

Maternidade e seus desafios

“Será que eu vou ser uma boa mãe?” Essa pergunta me assombrou por anos, muito antes de eu ter planos concretos de ter filhos. Eu nunca gostei de brincar de boneca ou de casinha, não me derretia ao ver bebês e acreditava que não tinha nenhum jeito com crianças. Quanto mais eu crescia, mais via mulheres dizendo que a maternidade era a melhor coisa da vida, que mudava tudo, mas era maravilhoso. Isso me assustava! Pensava que devia ser meu jeito prático, que, talvez, o instinto materno estava adormecido em mim, que uma hora ou outra ele brotaria e eu entraria para o time das boas mães.


Então, após me formar, me casar, estruturar uma vida, o passo seguinte era óbvio: ter filhos! Eu tinha vontade, sentia que era o momento, mas tinha muito medo. Adorava a minha vida, minha liberdade para fazer meu horário, minha rotina, meu trabalho, meu corpo magro, mas não tinha coragem de admitir isso nem em frente ao espelho. Isso fazia eu me sentir fria, fútil e menos digna que as outras mulheres.


Eu tentava me conectar com o lado romântico da maternidade, mas toda semana eu atendia uma mãe exausta, sobrecarregada e culpada. Via o desespero de muitas mulheres para se encaixarem nesse ideal de maternidade, a boa intenção de abdicar de tudo que era importante para elas em prol dos filhos e os efeitos nefastos disso na saúde de todos. Comecei a trabalhar com elas a necessidade do autocuidado, de dar prioridade ao que era importante fora da maternidade. Porém, muitas me olhavam e diziam: “você não é mãe, na prática, isso não é possível”. Eu me recolhia nessa verdade de não ter essa experiência, mas pensava que, na minha prática, isso tinha que ser possível, senão eu não daria conta.

Comecei a especialização em terapia de casal e família. O estudo sempre foi um recurso de força, e eu fui para esse curso para ampliar meu olhar sobre família e maternidade. Esperava que o conhecimento científico ou me convencesse que eu deveria ser a mãe que esperavam de mim, ou me trouxesse recursos para me encorajar a ser diferente. Tive sorte! Após uma aula sobre subsistemas familiares, vi um professor ensinar o que eu sentia como verdade: a maternidade não pode aniquilar as outras identidades, mas, sim, integrá-las!


Era o que eu precisava para vencer o medo.

Assim eu engravidei da minha primeira filha, há 13 anos. O tal instinto materno não brotou na gravidez. Eu continuava prática, me irritava com as limitações da gravidez, curtia a preparação do enxoval por breves períodos de tempo. As pessoas me viam de salto alto e maquiada e me diziam que isso estava com os dias contatos. Isso me desesperava, eu não acreditava que precisava ser assim.


Para reunir argumentos para minha não mudança, aproveitei o TCC do segundo ano para me jogar numa revisão bibliográfica sobre maternidade. Fiz uma retrospectiva histórica e descobri que a maternidade como concebemos hoje tem pouco mais de 200 anos. Descobri que essa injunção do amor materno começou com o higienismo, com o poder da medicina, com movimentos políticos e a entrada das mulheres no mercado de trabalho, etc. Assim nasceu um artigo “A reconfiguração da imagem materna”, que além de cumprir os requisitos acadêmicos foi, para mim, uma carta de alforria para começar a construir a maternidade do meu jeito.

E assim nasceu a mãe da Laura. Quando olhei minha pequena nos olhos pela primeira vez, senti uma emoção imensa e, no meu coração, disse a ela que eu me empenharia em ser a melhor mãe que eu pudesse ser, e que rezava que isso fosse suficiente. Descobri que a maternidade é uma relação construída, como todas as outras. Que a intimidade se constrói e que uma boa mãe pode não gostar de todas as fases do processo. Animada por essa descoberta, 5 anos depois, encorajei-me a ter a Júlia, hoje já com 6 anos.

Os traços mais marcantes da minha personalidade encontraram um novo colorido na maternidade. Descobri que meu amor usava outras linguagens para se expressar: não tinha “cuti-cuti” nem falas melodiosas, mas um diálogo fluído em que eu me ocupava em traduzir o mundo para elas por meio das experiências que vivíamos do jeito mais amoroso que eu conseguia. Uma mãe que continuou uma mulher vaidosa, e que se maquiava enquanto cantava e embalava o carrinho com o pé, que ia para a pracinha de salto alto entre um paciente e outro. Uma mãe que não gosta de brincar de faz-de-conta, mas que carrega para cozinha e brinca de fazer bolo de verdade. Me descobri uma mãe prática, que incentivava a independência, que olhava nos olhos e falava como se sentia, que traduzia o que seus comportamentos geravam em mim. Uma mãe sincera, honesta e, muitas vezes, dura, mas uma mãe que se esforça em olhar para elas e fazer o que precisam.

Apesar de sentir, no fundo do coração, que esse era o melhor que eu podia dar, a culpa sempre me acompanhou. Me chicoteei por ficar feliz em voltar a trabalhar com 40 dias, enquanto ouvia outras mães lamentarem deixar seus bebês após 6 meses de licença. Me sentia uma mãe sem coração por chamar a babá para sair jantar sozinha com meu marido, ou por ir feliz para um curso sem remorso de deixá-las por um final de semana inteiro. Apesar de, racionalmente, saber que não era errado, era difícil admitir que outras esferas da minha vida continuavam a me dar muito prazer e fazer falta quando não atendidas.

No auge desse processo de culpa acabei indo para uma constelação com essa dúvida ardendo no peito: “Será que estou sendo uma boa mãe? Será que estou fazendo certo?” Ouvi a frase mais óbvia e que, a partir daquele dia, passou a guiar o meu olhar – OLHE PARA OS EFEITOS! Quando olhei, vi duas meninas lindas, felizes, se desenvolvendo maravilhosamente bem, inteligentes, cheias de saúde e vida. Me emociono sempre que lembro quando olhei para isso pela primeira vez; aliviou meu peito de um jeito que ainda posso sentir.

Não tive tanto entusiasmo em ser mãe de bebê ou da primeira infância (confesso que achei muito trabalhoso) mas tenho adorado ser mãe de uma criança maior e de uma pré-adolescente. Adoro conversar com elas, ver como organizam o raciocínio, adoro apresentar as coisas que eu gosto e ver como reagem, responder suas perguntas, vê-las olhar para algo pela primeira vez. Nessas horas me sinto uma mãe realizada e encontro aquele amor imenso que tanto se falava.

Queria muito dizer que a culpa ficou para trás, mas não seria verdade. A culpa e o medo ainda me acompanham, só que mais de longe. Preciso me lembrar muitas vezes - olhe para os efeitos de suas ações! Aprendi que sempre que olho para mim, para minha exigência, eu encontro erros e acho que estou fazendo pouco, mas que quando olho para elas, eu sinto que está sendo suficiente. Talvez um dos maiores desafios da maternidade seja esse: acolher com a amor a maternidade possível para cada uma de nós, direcionando o olhar para os efeitos.


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